Ruas e ladeiras de pedras cortam a cidade de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, até as margens do rio que leva o mesmo nome. As lavadeiras ficam às margens dele durante todo o dia e crianças brincam de atirar pedrinhas no meio do rio ou de nadar entre as pedras, que represam a água da correnteza e formam pequenas piscinas naturais. As mulheres passam os dias com o meio corpo na água lavando e batendo trouxas de roupas. Há cantos, músicas para embalar as horas de trabalho, principalmente os momentos em que a água já não é mais refresco e sim uma corrente gelada que invade todo o corpo. O trabalho termina por volta das cinco da tarde. Aí as enormes trouxas lavadas vão embora equilibradas no alto da cabeça das lavadeiras.
A volta das mulheres pra casa e a brisa fria do começo da noite caindo sobre a cidade marcam os fins de tarde em Araçuaí, depois que o sol se esconde atrás das montanhas que cercam a região. Durante o dia, com o sol alto, são as crianças que estão por toda parte. Brincando pelas ruas, nos colégios, que eram antigos conventos de paredes de taipa e janelas coloniais, nas praças, nas ladeiras de pedra. Mas no final do mês de maio, com o teatro sendo apresentado nas ruas e praças pelo Festival Kiau em Cena, os dias em Araçuaí terminaram de outro jeito. O ritmo da volta das lavadeiras da beira do rio foi quebrado pela movimentação de adultos e crianças acompanhando as atrações teatrais, inéditas para muitas delas.
Numa tarde quente de segunda-feira, na Praça do Fórum, o sol alto não afastou o público da praça, eram centenas com os olhos vidrados no grupo de atores do espetáculo “Papo de Anjo”, de Belo Horizonte. Como faltava espaço para ver a trupe, os galhos das árvores e os telefones públicos da praça serviram de arquibancadas improvisadas na euforia para acompanhar a história. A peça contava a história do anjo Gabriel que queria se transformar em menino para poder correr, tomar sorvete, jogar bola e perseguir balões pelas ruas da cidade. Pediu a Nossa Senhora, sua madrinha. Ela permitiu, mas só por um dia. Às seis horas da tarde do dia seguinte, na hora do Ângelus, ele deveria voltar ao local combinado, recolocar suas asas e voar para junto dos outros anjos do céu e tentar esquecer de uma vez a idéia de virar menino.
Os meninos da praça, vidrados na história do anjo, se divertiram com as aventuras do anjinho pela Terra. Todos na platéia eram “Gabriéis”, mas com o direito de serem meninos até o dia em que crescessem. Na história, depois de muito argumentar com Nossa Senhora, o anjo Gabriel ganhou o direito de ser menino de verdade. Viver um dia inteiro na Terra como gente o fez entender as maravilhas que Deus concedeu aos homens e que negou até aos seus anjos. Os homens podiam fazer escolhas, amar, aprender coisas novas, os homens podiam estar no mundo cada dia de um jeito novo, com outros olhos, coisas que os anjos só viam de longe, das alturas ou ao redor daqueles seres tão confusos e interessantes. A peça terminou com um enorme balão vermelho sumindo no céu da cidade. A multidão de crianças saiu correndo atrás dele. O balão, que na terra era imenso, foi aos poucos se transformando em um minúsculo ponto perdido no céu azul e sem nuvens. Agora o anjo Gabriel também poderia correr atrás de balões coloridos como os meninos de Araçuaí. Poderia perseguir seu balão vermelho e, à procura dele, escrever a sua história na Terra, só que agora sem as asas. Coisa que os meninos de Araçuaí conhecem bem.
A volta das mulheres pra casa e a brisa fria do começo da noite caindo sobre a cidade marcam os fins de tarde em Araçuaí, depois que o sol se esconde atrás das montanhas que cercam a região. Durante o dia, com o sol alto, são as crianças que estão por toda parte. Brincando pelas ruas, nos colégios, que eram antigos conventos de paredes de taipa e janelas coloniais, nas praças, nas ladeiras de pedra. Mas no final do mês de maio, com o teatro sendo apresentado nas ruas e praças pelo Festival Kiau em Cena, os dias em Araçuaí terminaram de outro jeito. O ritmo da volta das lavadeiras da beira do rio foi quebrado pela movimentação de adultos e crianças acompanhando as atrações teatrais, inéditas para muitas delas.
Numa tarde quente de segunda-feira, na Praça do Fórum, o sol alto não afastou o público da praça, eram centenas com os olhos vidrados no grupo de atores do espetáculo “Papo de Anjo”, de Belo Horizonte. Como faltava espaço para ver a trupe, os galhos das árvores e os telefones públicos da praça serviram de arquibancadas improvisadas na euforia para acompanhar a história. A peça contava a história do anjo Gabriel que queria se transformar em menino para poder correr, tomar sorvete, jogar bola e perseguir balões pelas ruas da cidade. Pediu a Nossa Senhora, sua madrinha. Ela permitiu, mas só por um dia. Às seis horas da tarde do dia seguinte, na hora do Ângelus, ele deveria voltar ao local combinado, recolocar suas asas e voar para junto dos outros anjos do céu e tentar esquecer de uma vez a idéia de virar menino.
Os meninos da praça, vidrados na história do anjo, se divertiram com as aventuras do anjinho pela Terra. Todos na platéia eram “Gabriéis”, mas com o direito de serem meninos até o dia em que crescessem. Na história, depois de muito argumentar com Nossa Senhora, o anjo Gabriel ganhou o direito de ser menino de verdade. Viver um dia inteiro na Terra como gente o fez entender as maravilhas que Deus concedeu aos homens e que negou até aos seus anjos. Os homens podiam fazer escolhas, amar, aprender coisas novas, os homens podiam estar no mundo cada dia de um jeito novo, com outros olhos, coisas que os anjos só viam de longe, das alturas ou ao redor daqueles seres tão confusos e interessantes. A peça terminou com um enorme balão vermelho sumindo no céu da cidade. A multidão de crianças saiu correndo atrás dele. O balão, que na terra era imenso, foi aos poucos se transformando em um minúsculo ponto perdido no céu azul e sem nuvens. Agora o anjo Gabriel também poderia correr atrás de balões coloridos como os meninos de Araçuaí. Poderia perseguir seu balão vermelho e, à procura dele, escrever a sua história na Terra, só que agora sem as asas. Coisa que os meninos de Araçuaí conhecem bem.



