Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

O Balão Vermelho

Ruas e ladeiras de pedras cortam a cidade de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, até as margens do rio que leva o mesmo nome. As lavadeiras ficam às margens dele durante todo o dia e crianças brincam de atirar pedrinhas no meio do rio ou de nadar entre as pedras, que represam a água da correnteza e formam pequenas piscinas naturais. As mulheres passam os dias com o meio corpo na água lavando e batendo trouxas de roupas. Há cantos, músicas para embalar as horas de trabalho, principalmente os momentos em que a água já não é mais refresco e sim uma corrente gelada que invade todo o corpo. O trabalho termina por volta das cinco da tarde. Aí as enormes trouxas lavadas vão embora equilibradas no alto da cabeça das lavadeiras.
A volta das mulheres pra casa e a brisa fria do começo da noite caindo sobre a cidade marcam os fins de tarde em Araçuaí, depois que o sol se esconde atrás das montanhas que cercam a região. Durante o dia, com o sol alto, são as crianças que estão por toda parte. Brincando pelas ruas, nos colégios, que eram antigos conventos de paredes de taipa e janelas coloniais, nas praças, nas ladeiras de pedra. Mas no final do mês de maio, com o teatro sendo apresentado nas ruas e praças pelo Festival Kiau em Cena, os dias em Araçuaí terminaram de outro jeito. O ritmo da volta das lavadeiras da beira do rio foi quebrado pela movimentação de adultos e crianças acompanhando as atrações teatrais, inéditas para muitas delas.
Numa tarde quente de segunda-feira, na Praça do Fórum, o sol alto não afastou o público da praça, eram centenas com os olhos vidrados no grupo de atores do espetáculo “Papo de Anjo”, de Belo Horizonte. Como faltava espaço para ver a trupe, os galhos das árvores e os telefones públicos da praça serviram de arquibancadas improvisadas na euforia para acompanhar a história. A peça contava a história do anjo Gabriel que queria se transformar em menino para poder correr, tomar sorvete, jogar bola e perseguir balões pelas ruas da cidade. Pediu a Nossa Senhora, sua madrinha. Ela permitiu, mas só por um dia. Às seis horas da tarde do dia seguinte, na hora do Ângelus, ele deveria voltar ao local combinado, recolocar suas asas e voar para junto dos outros anjos do céu e tentar esquecer de uma vez a idéia de virar menino.
Os meninos da praça, vidrados na história do anjo, se divertiram com as aventuras do anjinho pela Terra. Todos na platéia eram “Gabriéis”, mas com o direito de serem meninos até o dia em que crescessem. Na história, depois de muito argumentar com Nossa Senhora, o anjo Gabriel ganhou o direito de ser menino de verdade. Viver um dia inteiro na Terra como gente o fez entender as maravilhas que Deus concedeu aos homens e que negou até aos seus anjos. Os homens podiam fazer escolhas, amar, aprender coisas novas, os homens podiam estar no mundo cada dia de um jeito novo, com outros olhos, coisas que os anjos só viam de longe, das alturas ou ao redor daqueles seres tão confusos e interessantes. A peça terminou com um enorme balão vermelho sumindo no céu da cidade. A multidão de crianças saiu correndo atrás dele. O balão, que na terra era imenso, foi aos poucos se transformando em um minúsculo ponto perdido no céu azul e sem nuvens. Agora o anjo Gabriel também poderia correr atrás de balões coloridos como os meninos de Araçuaí. Poderia perseguir seu balão vermelho e, à procura dele, escrever a sua história na Terra, só que agora sem as asas. Coisa que os meninos de Araçuaí conhecem bem.

Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Peça infantil ‘Cadê Kika?’ no Centro Cultural São Paulo




O espetáculo infantil A fabulosa viagem de Duda e Lola em busca da irmã perdida ou... Cadê Kika?, do Grupo Caixa de Histórias, de São José dos Campos, estará em cartaz de 17 de maio até 13 de julho no Centro Cultural São Paulo, sábados, domingos e feriados sempre às 16h. A peça conta a história de Duda e Lola, duas meninas que saem em uma aventura na busca de Kika, a irmã perdida. Nessa fabulosa viagem elas terão que cumprir tarefas e encontrar personagens fantásticos guiadas pela intuição e imaginação.
O espetáculo é uma criação das atrizes Glauce Carvalho e Karina Müller e resultado de um mergulho nas mais fantásticas histórias da literatura universal e do universo infantil. A pesquisa, a criação do texto, a relação com os profissionais envolvidos no processo e o fortalecimento da dupla em cena trouxe uma nova forma de trabalho para as atrizes, que a partir de então escolheram criar seus textos e espetáculos para crianças.
O cenário, adereços e figurinos foram criados a partir de materiais recicláveis hoje muito comuns no cotidiano infantil. E são esses materiais que se transformam em curiosos personagens no decorrer da viagem das duas meninas. O espetáculo tem direção de Marcio Douglas, assessoria dramaturgica de Luís Alberto de Abreu, direção musical de Beto Quadros, cenários, figurinos e adereços de Dagmar Siqueira, preparação corporal de Robson Jacqué e iluminação de Daniel Augusto. Toda a experimentação se tornou a principal linha de pesquisa do grupo para uma linguagem voltada ao público infantil. Outros espetáculos da dupla são: “Dita Onça e Cabra Rita” e “Lurdes e Mércia em: As Estrelas do Oriente”.

SERVIÇO:
De 17 de maio a 13 de julho de 2008
Aos sábados, domingos e feriados sempre às 16h.
Centro Cultural São Paulo – Sala Paulo Emílio Salles Gomes
Rua Vergueiro, 1000, Liberdade, São Paulo – SP (Metrô Vergueiro)
www.caixadehistorias.com

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Logo de manhã...


Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

As histórias que a vida escreve (2ª Parte)

Tempos no governo
“Ver um seringueiro pegando no lápis foi uma das coisas que mais marcou a minha vida”. Ainda no governo do Acre, um de seus projetos mais importantes foi a implantação do método Paulo Freire para a alfabetização dos seringueiros que viviam às margens dos rios da Amazônia. A ação chamou atenção do próprio Paulo Freire, que se não fosse o afastamento do então secretário de educação pelos militares, teria viajado ao Acre só para acompanhar as aulas e seus resultados surpreendentes floresta adentro.
O golpe militar separou o jornalista do Estado do Acre, da Amazônia e do povo do Norte do país, mas apenas fisicamente, já que dois de seus romances Gogó-de-Sola e O Feitiço da Mãe das Águas, ambos Prêmio Vladimir Herzog na categoria Romance nos anos de 1996 e 1999, respectivamente, foram construídos a partir de suas memórias da floresta durante a infância em Manaus e vida no Acre. O primeiro livro, Gogó-de-Sola é um romance que se passa na Amazônia e conta um pouco da vida no seringal, dos heroísmos, dos crimes, do amor, da morte e episódios da Revolução Acreana. Já O Feitiço da Mãe das Águas conta lendas do povo amazônico por meio de aventuras vividas pelo jornalista na selva. A distância do Norte do país não foi capaz de apagar da mente do autor os encantos da vida na Amazônia, como o “quiriri”, nome indígena que descreve um raro silêncio que às vezes paira na floresta. “É uma coisa incrível, como se de repente a floresta fosse suspensa e um vazio imenso fizesse tudo parar”.
A anistia, em 1985, trouxe o jornalista de volta ao corpo de funcionários do IBGE e ao direito de ser um cidadão outra vez, sem as dores “daquela miséria feita pelos militares”. E, recuperando as mágoas vividas na política, a vida seguiu em frente com lampejos de esperança.

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

As histórias que a vida escreve (1ª Parte)

O armário no pequeno corredor do apartamento guarda grande parte de suas lembranças. Quando a memória falha e uma data importante ou o título de um livro some da mente bem no meio de uma conversa são às inúmeras pastas amareladas pelo tempo e cuidadosamente guardadas que Maria José, a esposa, se dirige atentamente para reconstruir as peças de seu passado quase todo escrito nas entrelinhas de jornais, livros e documentos. As tantas histórias que o amazonense Luis Cláudio de Castro e Costa, 87 anos, tem pra contar o deixam até impaciente já que as palavras já não lhe saem dos lábios com a mesma fluência que ainda as escreve. Talvez uma das mais marcantes delas foi quando deixou sete anos de estudos de filosofia, teologia, latim, inglês, russo e francês para trás e abandonou o Seminário Arquidiocesano de Fortaleza.
Deixar definitivamente a religião depois dos sete anos de estudos, restrições sociais e reclusão não foi tão difícil quanto parar de usar a batina, roupa que o protegeu do mundo desde os 12 anos de idade. “Sem a batina eu estava despido de corpo e de espírito, não tinha mais a batina nem a Igreja comigo e não sabia como agir, onde por a mão, era como se eu estivesse nu”. O interesse de Luiz Cláudio pela vida longe da Igreja deveu-se principalmente à exigência de celibato imposta aos seus sacerdotes. “Eu sempre quis casar e achava que o padre devia casar também. No seminário todos sabiam desse meu desejo e quando eu passava os padres mais velhos brincavam: Lá vai o noivo!”. E foi mesmo, feliz e aliviado portão a fora, caminhando para a vida de cidadão comum, de pecador, como o resto da humanidade. Filho único de um funcionário público de Manaus e uma dona-de-casa muito católica, Luiz Cláudio foi o primeiro filho do casal depois de inúmeras tentativas seguidas de aborto espontâneo. Desde que veio ao mundo, sobreviveu contrariando as expectativas e, mais uma vez, contrariando os conselhos do próprio bispo e dos pais para não deixar o sacerdócio, apesar da profunda decepção de sua mãe, ele se foi para fora da Igreja, para sempre.
A vida longe do seminário e o encontro com o sexo oposto, que tanto o fascinava, foram as grandes aventuras de sua juventude depois dos anos de reclusão. E foi nesse período que Luiz Cláudio descobriu que a escrita podia ser usada de forma catártica para exorcizar seus maiores conflitos pelo decorrer da vida. Alguns dos mais marcantes foram escritos décadas mais tarde e estão presentes no romance O Dia da Ira, de 1975, livro com traços claramente autobiográficos que conta as aventuras de um ex-seminarista depois que abandona a batina e passa a viver perturbado por pensamentos contraditórios e intensas fantasias românticas e sexuais. Mas seu primeiro livro publicado, ao contrário do que se pensa, foi religioso: O Menino Jesus, obra sobre a infância de Jesus Cristo para as próprias crianças, muito elogiada pelos jornais na década de 50.
O casamento que tanto ansiou quando ainda era seminarista experimentou três vezes e três filhos. Para se sustentar fora do sacerdócio aproveitou os conhecimentos no seminário para dar aulas de francês no Ginásio Acreano, onde permaneceu de 1937 a 1945 e nunca se separou das Letras e da Literatura, as maiores paixões de sua vida. A verdade é que o seu encontro com a escrita foi eterno. Virou jornalista. A princípio no Acre, no primeiro jornal do Estado, O Acre. Em 1946 partiu para o Rio de Janeiro, onde fazia dupla jornada, um período como redator da área de comunicação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e outro como repórter do jornal Diário da Noite, do grupo Diários Associados. Nesse jornal fez muito sucesso com a coluna As histórias que a rua escreve, crônica semanal que retratava um fato marcante da semana anterior. “As pessoas nas ruas me reconheciam e perguntavam: E aí? A rua está escrevendo muito ultimamente?”. Sim, sempre escrevia.
Traduziu, editou, reescreveu o texto de outros, reinventou a própria história e influenciou muitos outros a seguirem o rumo do conhecimento. Amazonense amante da Floresta Amazônica e de seus habitantes seringueiros, em 1963 aceitou outro desafio: ser secretário de educação e cultura do Acre, a convite de um ex-aluno, José Augusto de Araújo, que se tornou governador do Estado. Na época, Luiz Cláudio deixou o emprego no IBGE para integrar o governo. O cargo possibilitou a criação de projetos inovadores que tiveram que ser interrompidos pouco depois de um ano. Com o Golpe de 1964, Luiz Cláudio foi afastado do cargo de secretário e teve seus direitos políticos cassados. Foi acusado de comunista e até hoje não entende o porquê. Com a ditadura perdeu o emprego no IBGE e foi trabalhar na Seção Imprensa da Embaixada dos Estados Unidos como tradutor e redator, de volta ao Rio de Janeiro. “Um suposto comunista trabalhando na embaixada americana, não fazia sentido”, relembra. “Aquele dia foi horrível. O país virou de cabeça pra baixo. Tivemos que deixar tudo. Muitos amigos de governo fugiram pelo rio para a fronteira com a Bolívia com medo dos militares”.
“Os amigos dele jogaram no rio todos os livros em russo que ele tinha em sua biblioteca com medo dos militares”, contou Maria José relembrando as histórias contadas pelo marido anos atrás. Pausa. “Não jogaram meus livros no rio”, respondeu categórico. “Como assim, NÃO JOGARAM? Você sempre contou essa história!”, retrucou Maria José. “Não, eles só esconderam, imagina... Jogar meus livros no rio!”, completou o jornalista. “Olha só Karina, agora eu sou mentirosa, mas ouvi essa história dos livros no rio a minha vida inteira! Que vergonha!”, risos. “Bem, se um dia disse isso exagerei um pouco”. Fim de papo.

Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Espera








Hoje queria cruzar os ares e deixar um risco no céu azul pra bem longe, lá pros lados do mar e muito mais além. Pisar noutras terras. Ver outras caras. Sentir outros cheiros. Mergulhar em outras paisagens. Um apertinho no peito me lembra de que não posso fazer nada disso... Hoje meu lugar é aqui, em terra firme. Essa vontade repentina nada mais é do que a angústia de ter que esperar. Esperar em silêncio ensinando a minha curta paciência que minhas vontades não são lá muito confiáveis e que muitas vezes ela se engana perdida pelo caminho. O telefone toca e um amigo antigo me faz lembrar de muito o que já vivi. Muitas dessas coisas calcadas na espera. A espera nos traz lembranças também. As lembranças esperança. Quantas coisas já esperei... Quantos ainda esperam ao meu lado. Uma amiga espera um novo emprego. Outra esperou anos a sua primeira filha, outras ainda esperam. Hoje o meu lugar é ao lado de minhas esperas. Vou fazer uma fila, por favor, não se afobem! Há lugar para todo mundo. Olho o céu azul sem meus riscos ao longe, acho vão ficar assim por mais um tempo.
"Não se preocupem com o amnhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal". Mt 6.34

Sábado, 1 de Março de 2008


Árvore e raízes.